Durante quase 30 anos, a minha família teve uma casa alugada em Buarcos, Figueira da Foz. Vivi lá desde os 5 anos até aos 21. Durante muito tempo, já vivendo no Porto, fui lá todos os fins-de-semana. Depois comecei a ir menos vezes. O meu pai, pelo contrário, foi aumentando a frequência das visitas. Agora que já pediu a reforma, a nossa senhoria apresentou-nos uma ordem de despejo. Em pouco tempo, os planos da minha família, principalmente do meu pai, de regressar à Figueira da Foz, caíram por terra. Eu habituei-me a mudanças. Gosto de mudanças. Ainda assim, ser expulso da Figueira custou-me. Aquela cidade foi o que tive de mais parecido com algo a que pudesse chamar "a minha terra". Vivia a caminho da povoação da Serra, já no limite do que se pode chamar Buarcos. A 10 minutos a pé, a descer, até à praia. A uma meia hora a pé, a subir, da Serra da Boa Viagem.
O Caminho Velho, a que me refiro neste texto, era um atalho, que percorria diariamente, ao regressar da escola. A meio da Rua Capitão Guerra, íngreme a valer, virava-se à direita, ao pé do supermercado da Dona Estrela, passando nas traseiras da Escola do Serrado - a que a minha professora primária, a Dona Emília, sempre chamou, abreviando, "O Governo" (penso que era abreviatura de "A Escola do Governo"). Estudava eu no Externato da Senhora da Encarnação. E, depois das aulas, subia até à Rua Senhora da Encarnação, passando pela Capela da Senhora da Encarnação, uns duzentos metros antes de chegar a casa. Durante muito tempo a minha morada foi, simplesmente, Rua da Senhora da Encarnação - Buarcos - 3080 Figueira da Foz. Depois, muitos anos depois, veio o número, quatro belos azulejos estilo emigrante, com o 55, a azul.
"Caminho Velho" é o nome de um livro que começa hoje a ser escrito. Nestes dias que passei, com os meus pais, a encaixotar a vida que vivi na Figueira, a ideia de um romance inspirado nos meus anos naquela casa assaltou-me. De sugestão da minha nostalgia passou quase a obsessão, abruptamente. Antes que tivesse tempo de pensar muito, o nome Caminho Velho impôs-se, definitivo e intransigente. E muito rapidamente percebi que queria que este livro fosse um projecto Dogma 2005. Nessa altura, em que o Dogma cimentou a ideia do livro, percebi que não queria inspirar-me na minha vida - queria contar a minha vida.
Tirei fotografias dos caixotes, da mudança. Trouxe fotografias, cartas antigas, poemas da adolescência, objectos. Vou-me rodear destes vestígios do que vivi na casa da Figueira, para escrever. Serão os documentos deste projecto. O Rogério ainda não sabe que comecei "Caminho Velho - O Livro", à luz do seu método. Aliás, ainda ninguém sabe. Vou-lhe enviar um email e pedir alguma orientação - não conheço nenhum livro que tenha sido escrito segundo o Dogma 2005.
Haverá um diário, que começo a escrever a seguir a este texto. Todas as entradas do diário serão aqui publicadas. Toda a correspondência, salvo pedido do remetente ou destinatário, será aqui publicada. Todas as fotos que trouxe e que use para me ajudar a escrever o livro, serão aqui publicadas. Alguns objectos que trouxe daquela casa serão aqui leiloados. A estrutura do livro está decidida - outro aspecto que se me impôs, desde o início. A narrativa começa no primeiro dia naquela casa (de que me lembro vividamente) e termina com o último dia naquela casa (que afinal não foi hoje, já que temos de lá voltar, para trazer mais algumas coisas e entregar a chave à Dona Maria, nossa quase-ex-senhoria). O diário que vou escrevendo, será incluído no livro, intercalado entre capítulos da narrativa. É um ciclo que pretendo fechar. O diário começa onde a narrativa terminará e termina quando terminar a escrita do livro.
Todo o processo que envolve a escrita do livro será aqui publicado, documentado, contado. A investigação, as conversas com famílias e amigos e respectiva correspondência. O contacto com as editoras. Os esforços de promoção do projecto e, mais tarde, do livro. O método que irei seguir é o proposto pelo Rogério Nuno Costa, no seu Dogma 2005, que referi anteriormente.
No livro, decidi manter todos os nomes de pessoas e de lugares. Isso inclui todos os familiares, amigos, conhecidos e outros que venha a referir, quer na narrativa principal do livro, quer no diário. Por respeito ao direito à privacidade, todos os que me pedirem, terão o seu nome substituído por um nome fictício, e o nome do lugar onde residem (ou residiam à altura dos eventos narrados) substituído por outro. Para que também isso seja documentado, peço a todos os que escolherem o anonimato que me enviem um email para caminhovelho@gmail.com a solicitar o anonimato, a explicarem sucintamente a razão do pedido e a escolherem a localidade e o nome fictícios, se assim o desejarem. Esses emails também serão aqui publicados, com os endereços electrónicos e os nomes ocultos, mas com todo o texto transcrito.
Apenas mais uma nota sobre o facto de o livro ser biográfico. A vida biografada é a minha. Não pretendo revelar segredos ou contar mexericos de outras pessoas. Será algo violento para mim, porque há coisas da minha vida que não contei a ninguém e são, precisamente, as que mais revelam a pessoa que sou - serão parte da história que pretendo contar, a minha. Mas quanto à vida dos outros, não pretendo fazer um livro escândalo, a contar tudo o que sei dos meus amigos e família. Não sou exibicionista nem paparazzo, nem vou escrever um livro para voyeuristas. Segue-se a primeira entrada do diário, que escreverei a seguir, transcrevendo-a para aqui.
O Caminho Velho, a que me refiro neste texto, era um atalho, que percorria diariamente, ao regressar da escola. A meio da Rua Capitão Guerra, íngreme a valer, virava-se à direita, ao pé do supermercado da Dona Estrela, passando nas traseiras da Escola do Serrado - a que a minha professora primária, a Dona Emília, sempre chamou, abreviando, "O Governo" (penso que era abreviatura de "A Escola do Governo"). Estudava eu no Externato da Senhora da Encarnação. E, depois das aulas, subia até à Rua Senhora da Encarnação, passando pela Capela da Senhora da Encarnação, uns duzentos metros antes de chegar a casa. Durante muito tempo a minha morada foi, simplesmente, Rua da Senhora da Encarnação - Buarcos - 3080 Figueira da Foz. Depois, muitos anos depois, veio o número, quatro belos azulejos estilo emigrante, com o 55, a azul.
"Caminho Velho" é o nome de um livro que começa hoje a ser escrito. Nestes dias que passei, com os meus pais, a encaixotar a vida que vivi na Figueira, a ideia de um romance inspirado nos meus anos naquela casa assaltou-me. De sugestão da minha nostalgia passou quase a obsessão, abruptamente. Antes que tivesse tempo de pensar muito, o nome Caminho Velho impôs-se, definitivo e intransigente. E muito rapidamente percebi que queria que este livro fosse um projecto Dogma 2005. Nessa altura, em que o Dogma cimentou a ideia do livro, percebi que não queria inspirar-me na minha vida - queria contar a minha vida.
Tirei fotografias dos caixotes, da mudança. Trouxe fotografias, cartas antigas, poemas da adolescência, objectos. Vou-me rodear destes vestígios do que vivi na casa da Figueira, para escrever. Serão os documentos deste projecto. O Rogério ainda não sabe que comecei "Caminho Velho - O Livro", à luz do seu método. Aliás, ainda ninguém sabe. Vou-lhe enviar um email e pedir alguma orientação - não conheço nenhum livro que tenha sido escrito segundo o Dogma 2005.
Haverá um diário, que começo a escrever a seguir a este texto. Todas as entradas do diário serão aqui publicadas. Toda a correspondência, salvo pedido do remetente ou destinatário, será aqui publicada. Todas as fotos que trouxe e que use para me ajudar a escrever o livro, serão aqui publicadas. Alguns objectos que trouxe daquela casa serão aqui leiloados. A estrutura do livro está decidida - outro aspecto que se me impôs, desde o início. A narrativa começa no primeiro dia naquela casa (de que me lembro vividamente) e termina com o último dia naquela casa (que afinal não foi hoje, já que temos de lá voltar, para trazer mais algumas coisas e entregar a chave à Dona Maria, nossa quase-ex-senhoria). O diário que vou escrevendo, será incluído no livro, intercalado entre capítulos da narrativa. É um ciclo que pretendo fechar. O diário começa onde a narrativa terminará e termina quando terminar a escrita do livro.
Todo o processo que envolve a escrita do livro será aqui publicado, documentado, contado. A investigação, as conversas com famílias e amigos e respectiva correspondência. O contacto com as editoras. Os esforços de promoção do projecto e, mais tarde, do livro. O método que irei seguir é o proposto pelo Rogério Nuno Costa, no seu Dogma 2005, que referi anteriormente.
No livro, decidi manter todos os nomes de pessoas e de lugares. Isso inclui todos os familiares, amigos, conhecidos e outros que venha a referir, quer na narrativa principal do livro, quer no diário. Por respeito ao direito à privacidade, todos os que me pedirem, terão o seu nome substituído por um nome fictício, e o nome do lugar onde residem (ou residiam à altura dos eventos narrados) substituído por outro. Para que também isso seja documentado, peço a todos os que escolherem o anonimato que me enviem um email para caminhovelho@gmail.com a solicitar o anonimato, a explicarem sucintamente a razão do pedido e a escolherem a localidade e o nome fictícios, se assim o desejarem. Esses emails também serão aqui publicados, com os endereços electrónicos e os nomes ocultos, mas com todo o texto transcrito.
Apenas mais uma nota sobre o facto de o livro ser biográfico. A vida biografada é a minha. Não pretendo revelar segredos ou contar mexericos de outras pessoas. Será algo violento para mim, porque há coisas da minha vida que não contei a ninguém e são, precisamente, as que mais revelam a pessoa que sou - serão parte da história que pretendo contar, a minha. Mas quanto à vida dos outros, não pretendo fazer um livro escândalo, a contar tudo o que sei dos meus amigos e família. Não sou exibicionista nem paparazzo, nem vou escrever um livro para voyeuristas. Segue-se a primeira entrada do diário, que escreverei a seguir, transcrevendo-a para aqui.
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