Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

Notas do tradutor #9

Hoje comecei a tradução do segundo conto, "Forgiveness Day". Fi-lo mesmo sem ter feito ainda a revisão da tradução do primeiro conto. Andei a adiar o começo da revisão, dizendo a mim mesmo que precisava de tempo e de silêncio. Prefiro continuar a tradução do livro, mesmo que a revisão aconteça só no fim de tudo. A ideia de rever cada conto à medida que concluo a sua tradução agrada-me. Mas não quero ficar parado. 

Há já uma palavra que me está a dar que pensar. "Hilfer" é palavra do universo de Ursula K. Le Guin, que aparece frequentemente nos livros do Hainish Cycle. Vem de HILF, sigla para Highly Intelligent Life Form, expressão que designa vida inteligente, nomeadamente as várias espécies humanas nos planetas colonizados pelos Hain e uma ou outra espécie considerada igualmente inteligente (como é o caso dos nativos de Athshe, em The Word for World is Forest). Um Hilfer é alguém que se dedica ao estudo de HILFs, da mesma forma que um antropólogo se dedica ao estudo do homem. HILF é pronunciável e Hilfer soa bem. Traduzindo a sigla para português, fico com FVAI (Forma de Vida Altamente Inteligente). É dificilmente pronunciável e encontrar um sufixo credível parece-me difícil. Fvaiador é ridículo, Fvaísta ou Fvaiólogo também não resultam. Tenho a opção de manter as duas palavras (HILF e Hilfer) no original, opção que não me desagrada totalmente. Este conto que agora traduzo tem 77 páginas, pelo que me deve ocupar durante mais tempo que o anterior.

Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Escrita de sonhos #25


o rufia contratado para me eliminar já tinha morto uma das pessoas da audiência. escondeu-se no meio das pessoas, cobardemente. consegui atingi-lo atirando-lhe um objecto pequeno e pesado, talvez uma pedra. peguei numa barra metálica comprida e pesada e atirei-me na sua direção, ele defendia-se ferozmente. em breve, estávamos a cantar e recriar genéricos famosos de séries televisivas. já antes a luta tivera um caracter de entretenimento, para a multidão, disposta e sedenta de ser público. agora, fazíamos, com coreografia, uma dança de origami, com placas metálicas e de madeira e as duas barras, dobrávamos o espaço, representando para o gozo da audiência.

#escrito às 04h58 de 17 de Dezembro de 2010

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Escrita de sonhos #24


rail slide, back flip, cross backwards. em quad line. e sabe bem ter os patins calçados, como se o seu peço excessivo e a sua falta de mobre manobrabilidade fossem uma vantagem. a minha mãe que usou um patim em linha que lhe emprestei porque tinha gesso no calcanhar e andava com dificuldade. e eu que tinha uns quad nos quais fazia mais do que poderia imaginar ser capaz.

#escrito às 05:25 de 16 de Dezembro de 2010

Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Notas do tradutor #8

Terminei há minutos a tradução das quarenta e seis páginas do primeiro conto, "Traições" ("Betrayals", no original). Na edição da Editorial Presença, "Four Ways to Forgiveness", título do livro, não é traduzido directamente. A opção foi usar o título do segundo conto, "Forgiveness Day", tendo o livro, em português, recebido o título "O Dia do Perdão". Eu prefiro tentar uma tradução. Como título provisório, tenho "Quatro Vias para o Perdão". Hoje e amanhã, pelo menos, vou estar ocupado com a, ou as, revisões. É um trabalho que implica uma leitura comparada (do original e da minha versão traduzida), lenta, atenta, redundante e rigorosa. 

Há expressões simples, como "After a while" (esta começa várias frases) que tenho de ter a certeza de traduzir sempre da mesma forma, respeitando a coerência e a repetição do original com coerência e repetição na tradução. Há ainda o léxico ligado ao ambiente natural onde se passa a história. "Reeds", "reedbeds", "marsh", "bog", "causeway", "peat", tudo expressões ligadas à vida rural em zona pantanosa. Há também expressões, num contexto que se cruza com o referido, como "hearth", "hearthstone", "hearth-seat", que tenho de traduzir com muito cuidado, encontrando campo semântico e léxico da ruralidade portuguesa que tenham semelhante valor cultural e linguístico. Na verdade, a maior parte destas expressões já têm um equivalente que escolhi. Mas serão as revisões a assegurar a coerência, a resolver as indecisões que restem, a fixar as escolhas que eu assuma definitivamente.

Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

Notas do tradutor #7

Ultimamente tenho notado algo de que não estava à espera. Decorre do facto de a língua ser algo de tão íntimo e visceral, tão interior e intrínseco. A língua constantemente traduz e interpreta, como diz Damásio em relação ao cérebro, o mundo interior e o mundo exterior. E traduz e interpreta um mundo em relação ao outro. Quando falo ou leio noutra língua, durante tempo suficiente, passo a pensar nessa língua. Isto facilita a oralidade, torna-me mais fluído e alerta, quando estou a falar com alguém noutra língua. Também me ajuda a sintonizar, a aproximar-me, a abraçar um timbre mais íntimo, quando estou a ler noutra língua.

O que me tem surpreendido muito e preocupado um pouco é o seguinte. Ao traduzir, fico, ou tenho ficado, mais sintonizado no inglês do que no português. Isto consolida a necessidade e a prática de ler detalhadamente, demoradamente, intimamente, o original em inglês. O que me acontece é que perco um pouco da sintonia necessária com a minha própria língua, para a qual estou a traduzir. Noutro dia, ao traduzir "came" para "veio", subitamente me pareceu estranha e errada a palavra "veio". Repeti-a em voz alta, várias vezes, para ter a certeza, que tardou, de que a palavra estava correcta. Mais assinalável do que episódios com palavras é o que às vezes acontece com frases inteiras. Ao rever a primeira tradução, encontro aqui e ali expressões em português bastante pobre, demasiado esforçado em se colar à estrutura e estilo da frase original. Cada vez mais repito em voz alta as frases que vou criando em português, para ter a certeza de que soam a português, de que estão em português, como se fossem, desde o início portuguesas. Esta é uma das descobertas que fiz, como mui inexperiente tradutor, um dos elementos a ter em conta, se quero traduzir com assertividade, correcção e elegância. Nota registada, arregaço de novo as mangas, de volta à tradução. Estou a encará-la como um trabalho, que preciso de entregar a tempo e em condições.

Escrita de sonhos #23


aquela porta acumulava recordações terríveis. agora jogávamos à batalha naval de estendal, um clamor de vozes estrangeiras fez-nos levantar os olhos para uma multidão de pré-adolescentes tibetanos. tinham vindo pelo manípulo, a maçaneta mágico-mecânica da porta. conheciam o dispositivo como "porta da verdade" e estavam cheios de perguntas e curiosidades que queriam converter em respostas. fechei a porta, depois de perceber que não eram ursos em fúria, mas apenas humanos animados e cheios da determinação dos gangues. não era sede de sangue, era apenas fome de saber. ajustei dois espelhos, para que pudessem ler as respostas da porta, mesmo sem ter a certeza de quais línguas falariam.

#escrito às 02h10 de 6 de Dezembro de 2010

Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Notas do tradutor #6

Uma questão que ainda não está resolvida é a do tratamento entre personagens. Nestas histórias isto é absolutamente essencial, visto que as sociedades apresentadas têm uma total separação de classes, sendo uns proprietários de escravos e outros, a maioria, escravos. O problema não está nos títulos, está na pessoa verbal. Em inglês, mesmo que um escravo se esteja a dirigir ao seu senhor da maneira mais polida, formal e submissa, usa sempre a primeira pessoa. Um exemplo inventado, "I would, in no way, dare to dream of causing you any distress, my Lord. You are my master, and I abide by your sweet commands". Traduzir isto para português coloca a questão da pessoa verbal. "You", gramaticalmente, é o mesmo que tu. Mas na prática da língua, não é. Nós não usamos "tu" para nos dirigirmos a um superior hierárquico, a uma pessoa mais velha, a um desconhecido e, no caso de muitas pessoas, nem sequer para nos dirigirmos aos nossos pais. Em inglês é o estilo da linguagem e, sobretudo, o título usado, que permite o tratamento reverencial. A pessoa verbal usada é sempre a primeira, "you".

Ao pensar nas opções que tinha, desde logo houve algo que ficou decidido. Quando um escravo se dirige a um não escravo, uso a terceira pessoa. Como a sociedade é extremamente sexista e patrialcal, sendo as mulheres consideradas legalmente propriedade dos maridos (isto, entre proprietários de escravos),  uso a terceira pessoa para quando as mulheres  se dirigirem aos maridos. Aqui não há grande complicação. Um pouco mais difícil de decidir é quanto ao tratamento das crianças filhas dos escravos em relação aos mais velhos. Aqui opto por usar a primeira pessoa - visto que os proprietários faziam tudo para que os escravos não tivessem laços familiares, proibindo o casamento e até o contacto entre escravos de sexos diferentes. No original, em inglês, não existem elementos que sugiram algum tipo de reverência formal especial, entre escravos. A coisa complica-se quando, depois da revolução (e as histórias passam-se exactamente neste momento de enorme transformação social e alteração dos paradigmas de poder), disputam o poder chefes tribais, exercendo agora a opressão que tinham sofrido e portando-se como novos-proprietários. Para já, opto por usar a terceira pessoa, em contextos em que a hierarquia ou o poder político estejam em questão. Os protagonistas do primeiro conto são uma mulher idosa, ex-escrava, e um ex-chefe tribal, também idoso, fundador do principal partido político (ambos nasceram e cresceram escravos e viveram, até ao  momento presente, 30 anos da Guerra da Libertação) . Entre eles, optei por usar a primeira pessoa, visto que não existe no original em inglês nenhum elemento de formalidade discursiva. Além disso, no contexto em que se conhecem e estabelecem uma relação, são dois velhos, "são iguais", como diz Yoss a certa altura, e não um chefe e uma subordinada.

Não é para aqui chamado, mas apetece-me dizer, repetir, que tenho uma imensa inveja da língua inglesa neste aspecto. "You" em todas as ocasiões. Nada de separação entre tu, você, o senhor, a senhora, enfim. Tenho inveja de uma língua assim. E, na verdade, não é da língua que tenho inveja. Os brasileiros usam o você para toda a gente, à semelhança do you inglês - embora nivelando com a terceira pessoa e não com a primeira. E até os nossos vizinhos ibéricos, no dia-a-dia, se habituaram a usar tu para toda a gente. No fundo é de uma certa cultura e suas consequências linguísticas, que tenho inveja. A língua portuguesa não tem nada de mal, é a forma como a usamos que acentua tão escusadamente as diferenças de classes, estatuto, idade, poder.

Notas do tradutor #5

"Alien" é uma palavra essencial quer neste livro quer em todas as outras histórias do Hainish Cycle. No cinema, vemos a palavra traduzida geralmente para extraterrestre. É uma tradução aceitável (mas não ideal) da palavra inglesa, no caso de uma história passada na Terra, em que a expressão designa seres de outros planetas (que não a Terra). Extraterrestre não está mal, para referir vida exterior à Terra. Ora, no Hainish Cycle, a maior parte das histórias tem lugar noutros planetas (que não a Terra). No livro que estou a traduzir, a acção passa-se noutro sistema solar, mais especificamente em dois planetas, Werel e Yeowe. 

Optei por traduzir directamente para "alienígena". É uma palavra feia e mal-jeitosa. Mas é a tradução literal de "alien" e transporta os mesmo dois principais significados. O de estrangeiro no sentido estrito, de estrangeiro em relação a um país, povo ou cultura e o mais lato, de estrangeiro em relação a um planeta, uma espécie, uma civilização. Em inglês, os dois significados são amplamente usados. Em português, é raro usarmos a palavra "alienígena" para referirmos um estrangeiro (que o seja em relação ao nosso país, por exemplo). Uso "alienígena", então, para traduzir directamente "alien", que é palavra usada muitas vezes, por povos e pessoas diferentes em diferentes planetas. No Hainish Cycle todos são, sempre, alienígenas em relação a todos os outros. A palavra é usada pelos vários lados, como acontece com a palavra bárbaro nos romances de Mary Renault sobre Alexandre o Grande - os persas chamam  bárbaros aos macedónios e estes chamam bárbaros aos persas.