Uma questão que ainda não está resolvida é a do tratamento entre personagens. Nestas histórias isto é absolutamente essencial, visto que as sociedades apresentadas têm uma total separação de classes, sendo uns proprietários de escravos e outros, a maioria, escravos. O problema não está nos títulos, está na pessoa verbal. Em inglês, mesmo que um escravo se esteja a dirigir ao seu senhor da maneira mais polida, formal e submissa, usa sempre a primeira pessoa. Um exemplo inventado, "I would, in no way, dare to dream of causing you any distress, my Lord. You are my master, and I abide by your sweet commands". Traduzir isto para português coloca a questão da pessoa verbal. "You", gramaticalmente, é o mesmo que tu. Mas na prática da língua, não é. Nós não usamos "tu" para nos dirigirmos a um superior hierárquico, a uma pessoa mais velha, a um desconhecido e, no caso de muitas pessoas, nem sequer para nos dirigirmos aos nossos pais. Em inglês é o estilo da linguagem e, sobretudo, o título usado, que permite o tratamento reverencial. A pessoa verbal usada é sempre a primeira, "you".
Ao pensar nas opções que tinha, desde logo houve algo que ficou decidido. Quando um escravo se dirige a um não escravo, uso a terceira pessoa. Como a sociedade é extremamente sexista e patrialcal, sendo as mulheres consideradas legalmente propriedade dos maridos (isto, entre proprietários de escravos), uso a terceira pessoa para quando as mulheres se dirigirem aos maridos. Aqui não há grande complicação. Um pouco mais difícil de decidir é quanto ao tratamento das crianças filhas dos escravos em relação aos mais velhos. Aqui opto por usar a primeira pessoa - visto que os proprietários faziam tudo para que os escravos não tivessem laços familiares, proibindo o casamento e até o contacto entre escravos de sexos diferentes. No original, em inglês, não existem elementos que sugiram algum tipo de reverência formal especial, entre escravos. A coisa complica-se quando, depois da revolução (e as histórias passam-se exactamente neste momento de enorme transformação social e alteração dos paradigmas de poder), disputam o poder chefes tribais, exercendo agora a opressão que tinham sofrido e portando-se como novos-proprietários. Para já, opto por usar a terceira pessoa, em contextos em que a hierarquia ou o poder político estejam em questão. Os protagonistas do primeiro conto são uma mulher idosa, ex-escrava, e um ex-chefe tribal, também idoso, fundador do principal partido político (ambos nasceram e cresceram escravos e viveram, até ao momento presente, 30 anos da Guerra da Libertação) . Entre eles, optei por usar a primeira pessoa, visto que não existe no original em inglês nenhum elemento de formalidade discursiva. Além disso, no contexto em que se conhecem e estabelecem uma relação, são dois velhos, "são iguais", como diz Yoss a certa altura, e não um chefe e uma subordinada.
Não é para aqui chamado, mas apetece-me dizer, repetir, que tenho uma imensa inveja da língua inglesa neste aspecto. "You" em todas as ocasiões. Nada de separação entre tu, você, o senhor, a senhora, enfim. Tenho inveja de uma língua assim. E, na verdade, não é da língua que tenho inveja. Os brasileiros usam o você para toda a gente, à semelhança do you inglês - embora nivelando com a terceira pessoa e não com a primeira. E até os nossos vizinhos ibéricos, no dia-a-dia, se habituaram a usar tu para toda a gente. No fundo é de uma certa cultura e suas consequências linguísticas, que tenho inveja. A língua portuguesa não tem nada de mal, é a forma como a usamos que acentua tão escusadamente as diferenças de classes, estatuto, idade, poder.