Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

O artista entretanto conhecido por nuno érre

 


De certa forma, com estas últimas três faixas fecho o meio de um ciclo. Como é expressão que não faz sentido, passo a explicar. A princípio, e o nome até surgiu daí, "cefalópode em crescimento" seria uma compilação das minhas experiências, que eu publicaria faixa a faixa, sem grandes angústias. Seria de esperar que a minha inexperiência, os erros e tudo o que é de esperar de um processo de exploração e de aprendizagem estivesse à mostra. Achei que o interesse em publicar era mesmo expor esse processo. O que fui percebendo é que a minha aprendizagem, nem ao nível mais básico - da criação de intimidade com a guitarra, de apuramento de um som que pudesse chamar meu, de alguma ginástica nas ferramentas de edição -, se começava a concretizar com esse primeiro álbum.

Comecei a publicar faixas aglomeradas sob o nome de "músculo bivalve". E pouco depois descobri, levando um pouco mais longe esse desejo de expor o erro e a exploração, que queria também publicar o fundo da gaveta: isso deu origem a "scraps and rejects". Como sou um falso desorganizado, ou seja, sou apenas desleixado mas tenho uma pulsão enorme, de nerd arquivista, para a organização, fui encontrando métodos e sistemas que estruturavam o que ia fazendo. É uma característica minha, com que convivo muito bem: estruturalmente sou organizado, mas tenho uma dinâmica e um discurso, um, digamos, funcionamento, livre, caótico até. Por isso tanto encontro métodos e dou nomes às coisas antes de as começar como descubro metodologias e nomenclaturas a meio dos processos. Não vou descrever em pormenor tudo o que aconteceu neste três álbuns. Aplicando o que disse sobre a estrutura e dinâmica ao som que fui produzindo: sou organizado e metódico quer na concepção antes sequer de existir material para trabalhar, quer na apropriação do material que já existe numa lógica de estruturação mas no que diz respeito a trabalhar o som, gosto de ir ao encontro da intuição, ou de a acolher, quando ela me dá um sinal, gosto da liberdade, nem que tenha de preparar um cenário que me permita exercê-la . 

Isto é algo de que tenho falado, noutros termos, nas minhas crónicas no troblogdita. Há uns tempos, disse por brincadeira a um amigo que a próxima vez que uma rede social tiver um campo do género 'defina-se numa frase' eu escrevo, "gosto mais de patins em linha do que de filosofia". Isto para quem me conhece talvez seja suficiente. O que quero dizer, ou melhor, o que está por detrás daquela afirmação é que eu sinto necessidade de fugir da razão, da lógica, da matemática e da filosofia, exactamente porque tenho uma pulsão imensa para o pensamento. E acho mesmo que, ao contrário do que gostamos de pensar, usamos o pensamento como uma forma de alienação. Ao segundo. A cada instante dos nossos dias. Nisto, não tenho problema nenhum em falar, porque estou, acima de tudo, a criticar-me a mim próprio. A cada momento, em vez de viver, de prestar atenção ao que está a acontecer, à realidade, aos meus sentidos, às pessoas à minha volta e a mim próprio, eu estou a pensar sobre o passado, sobre o futuro ou sobre os meus próprios pensamentos. A isto chamo alienação. Ế-me fácil pensar. Discorrer, divagar. O que é mais difícil é prestar atenção, parar. E quando toco, principalmente quando improviso com outras pessoas, estou realmente no momento presente. Andar de patins ou nadar no mar são actividades, são das poucas actividades em que naturalmente, sozinho e sem anos de meditação, consigo igualmente estar presente, atento, sem me alienar em pensamentos inúteis. Sem estar a comentar interiormente, a dialogar comigo próprio, sobre o que aconteceu ou que o que imagino que irá acontecer. 

Voltando ao início. A meio do "músculo bivalve" e do "scraps and rejects" que fui alimentado ao mesmo tempo, encontrei um método, que me permitiu ter um horizonte, uma forma de fechar o ciclo. Não de forma temporal, no sentido de estabelecer uma data. Mas de outra forma. Como o "cefalópode em crescimento" tem doze faixas, decidi que o músculo teria 11, o scraps teria 10 e cada um dos seguintes teria menos uma, até que o último álbum deste ciclo teria apenas uma faixa. Comecei este processo de aprendizagem, gosto de insistir nesta linguagem, há cerca de cinco meses. Os primeiros três álbuns estão prontos, não no sentido de serem produtos musicais acabados, mas num sentido puramente matemático de terem as faixas que estavam previstas, 12, 11 e 10. Matematicamente faltam mais 9 álbuns, com um total de 45 faixas. Mas o som que irei produzir, esse não é possível formular através da matemática que encontrei para me organizar. O próximo álbum já tem nome, e o nome surgiu por causas do tipo de sons que quero explorar. Não o vou explicar, intimamente desejando que o jogo de palavras não seja completamente imperceptível: "cavações de grampo".